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Paula Autran

PAULA AUTRAN

 

Autora do livro de poemas Manifesto de mim mesma, Paula Autran é mestre (e doutoranda) em artes cênicas pela ECA/USP. É formada em história (USP) e jornalismo (PUC). É autora do livro infantil Vovó Rock and Roll (editora Prumo), co-autora da peça infanto-juvenil Tirando um Som (editora Paulus), do relato jornalístico A Volta dos Mutantes (sobre a banda de rock, Editora Publisher Brasil), e de Peças (edição própria) com cinco peças de sua autoria. Teve seis peças encenadas, entre elas a infantil Armário Mágico, com a qual foi indicada como autora revelação no Prêmio FEMSA. A peça também foi adaptada para o Teatro Rá Tim Bum, da TV Cultura. É integrante do Centro de Dramaturgia Contemporânea. Também ministra aulas de dramaturgia e escreve textos jornalísticos. E muito recentemente passou a se auto-intitular escritora.

 

 

Contatos:

Skook de Algarobas Urbanas

 


Conheça 03 poemas do livro Manifesto de mim mesma, de Paula Autran:

 

Manifesto de mim mesma


Ficam revogadas todas as ideias contrárias a mim mesma.
(Ideias minhas, que fique claro).

A partir de hoje poderei livremente exercer a mim mesma,
por aqui reinará a mais completa auto-indulgência.

Poderei gostar livremente da língua portuguesa.
Poderei amar livremente as palavras sôfrega, irrefreável,
consubstanciosa e soslaio.

Poderei livremente renegar o rock,
o fim da poesia dos ônibus de janelas abertas
e o fim do silêncio nos salões de cabeleireiro.

Poderei livremente renegar o uso irritante da tecnologia.
Poderei, inclusive, ser muito, muito incoerente
e postar isso no Facebook.

Poderei livremente gostar só de músicas de mulherzinhas
da nova safra da MPB
que cantam baixinho
e usam vestidos floridos.
E em seguida morrer de tesão ouvindo
o Mick Jagger cantar Angie.

Poderei livremente fritar ao sol sem medo de raios UVA e UVB.
Poderei proibir meu filho de comer chocolate
e ver desenho na televisão,

e imediatamente dar a ele café com leite,
e rir com ele vendo Alien X O Predador.
Posso não gostar de gibi, nem de textos pós-dramáticos
e morrer de sono e tédio ao ver uma peça sem narrativa.

Posso ensinar o hino do Corinthians ao meu filho,
dizer a ele que esmalte é coisa de mulher
e depois deixá-lo usar meu batom e andar com meus
sapatos de salto alto.

Posso olhar para um homem e dizer:
quero te beijar agora
e chorar como uma virgem em casa
de solidão e saudade.

Posso não prestar continência a ninguém.
Posso não ter medo de nada,
só do meu desassombro.

Posso tudo o que eu quiser
do jeito que eu quiser
na hora que eu quiser.

Porque quando eu atravessar a rua
amanhã de manhã
ou agora mesmo
bem daqui a pouquinho,

diferente de você,
tenho certeza de que um caminhão
bem grande,
bem veloz,
bem veloz mesmo
e
desgovernado
pode acabar
com qualquer certeza,
medo,
raiva,
tédio
ou
rancor.


***

 

Alguma epifania

 

E sendo a noite o final do dia deveria
trazer alguma epifania
para rimar, para fazer sentido,
mas não traz.

Os desafios auto impostos
crescem gigantes
à minha frente

como as bocas dos dragões
que meu filho coleciona
e que no escuro das horas insones ( perdidas)
me metem medo de verdade.

Mas fé é para ser tirada do bolso
nesses momentos.
Para que lembremos com destemor
que o mistério é a matéria
que habitamos todos os dias.

E que ir e vir é só o que podemos fazer entre
nascer ( vindos de um lugar que não conhecemos)
e morrer ( indo para um lugar que não sabemos se existe).

Então, parece mesmo que não há jeito:
o mistério é estar aqui
agora.

E disso tiremos o melhor:
procuremos sem descanso o abismo que
melhor nos apraz para sentarmos em sua beira
e balançarmos os pés despreocupadamente,

pois para isso
é necessário que eles não estejam fincados
com segurança em terra firme
alguma.

***

 

Por tão Pouco...

 

Olho para o sabonete na pia.
Ele está no final.
Gosto de usar os sabonetes até o finalzinho.
E pensar o que acontece com eles.

Sobram sempre alguns pedaços.
Eles não se extinguem por completo.
Nem o shampoo, a pasta de dente
ou o perfume.

Há sempre uma gota no final do frasco,
do recipiente, da embalagem.
Como os grãos de arroz, o pó do café.

Nós é que desistimos deles.
Desistimos de apertar o tubo,
de catar migalhas,
de bater no fundo do frasco.

Um dia cansamos de nos esforçar
por tão pouco.

 


 

Livro: Manifesto de mim mesma

Autor: Paula Autran

Ilustrações: Natália Lemos

Gênero: Poesia

Número de Páginas: 140

Formato: 14x21 - acabamento em capa dura

Preço: R$ 35,00 + frete