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Paula Autran

PAULA AUTRAN

 

Autora dos livros de poemas Amor que parte (Patuá, 2017) e Manifesto de mim mesma (Patuá, 2014) e da peça-romance Nos países de nomes impronunciáveis (Patuá, 2015), Paula Autran é mestre (e doutoranda) em artes cênicas pela ECA/USP. É formada em história (USP) e jornalismo (PUC). É autora do livro infantil Vovó Rock and Roll (editora Prumo), co-autora da peça infanto-juvenil Tirando um Som (editora Paulus), do relato jornalístico A Volta dos Mutantes (sobre a banda de rock, Editora Publisher Brasil), e de Peças (edição própria) com cinco peças de sua autoria. Teve seis peças encenadas, entre elas a infantil Armário Mágico, com a qual foi indicada como autora revelação no Prêmio FEMSA. A peça também foi adaptada para o Teatro Rá Tim Bum, da TV Cultura. É integrante do Centro de Dramaturgia Contemporânea. Também ministra aulas de dramaturgia e escreve textos jornalísticos. E muito recentemente passou a se auto-intitular escritora.

 

 

Contatos:

Skook de Algarobas Urbanas

 

Conheça 5 poemas do livro Amor que parte, de Paula Autran:

 

Nosso amor:
um osso em um relicário antigo
encravado em algum ponto
indefinível
entre minha garganta e meu
coração
que só dói
quando engulo
(ou respiro).




***


E então
volto ao meu habitat
primitivo:
uma floresta
de sentimentos noturnos,
na qual não sei se sou
presa ou predador
a tatear no escuro,
a buscar algo
que não sei o que é,
ficar à espreita
por qualquer
som, qualquer sinal,
(nesse lugar onde
a fumaça não
se propaga).
Perder-me
a perscrutar a outra de
mim mesma,
refletida no silêncio
que reverbera
de você



***



Tenho pavor de guiar em estrada,
não gosto da velocidade com que
carros e caminhões se aproximam,
não gosto de curvas, tenho sempre a
impressão de que vou cair da ponte,
sair dos trilhos, pular fora das pistas
demarcadas para mim.
Tenho medo de alças de acesso,
quando elas surgem já sei
que vou me perder,
mapas me distraem com suas muitas
possibilidades e sempre acabo
indo para o lado errado,
mas me lembrei hoje
de quando demarquei direitinho
os 32 passos,
(com um pé bem depois do outro)
da sala de jantar até
o teu lado da cama,
onde me perder
era
o meu caminho
exato.



***



Arrumando a biblioteca
pela enésima vez,
me detenho nos livros que você me deu:
abro as páginas em busca de alguma
reminiscência
desses anos passados, nada há ali
além das palavras passando
uma a uma.
De repente sua letra:
Te amo.
Olho a capa do único livro
que você me dedicou:
biografia do Stalin.
É, penso, bom resumo do que foi
nosso furioso, insano, violento e
arrasador amor
adolescente.
Arranco a página
recorto suas letras uma a uma,
passo cola prit de bastão
e colo na primeira página
do Corpo, do Drummond,
que líamos um para o outro
nas manhãs daqueles dias em que
você me ensinou que a grande descoberta
do amor se resume a uma só palavra:
intimidade.
Todo o resto vai embora junto
com a biografia do Stalin:
já não há mais nada de ruim
em lembrar de você,
pois finalmente não há
mais nada (nada) de ruim
em lembrar de mim
mesma.



***



Hoje, no dia em que o ano de fato
começa por aqui, (em que as coisas deveriam
voltar ao normal) me pego
com um oceano a atravessar
meu quarto,
com um fundo de areias pedregosas
a dificultar meus passos,
tento desviar das naus que atracam
pelos portos nos quais se transformaram
os quartos da minha casa.
Lanço mão do velho truque e coloco uma
carta dentro de uma das garrafas
de vinho que saem boiando
do meu armário.
Ela é endereçada a você.
Assim que ela te alcançar
volte correndo e me tire
desse naufrágio no qual
se transformou tudo por aqui
desde que você
resolveu fazer dos meus braços
o ancoradouro de tanto
(tanto)
amor.

 

 


 


Conheça 3 poemas do livro Manifesto de mim mesma, de Paula Autran:

 

Manifesto de mim mesma


Ficam revogadas todas as ideias contrárias a mim mesma.
(Ideias minhas, que fique claro).

A partir de hoje poderei livremente exercer a mim mesma,
por aqui reinará a mais completa auto-indulgência.

Poderei gostar livremente da língua portuguesa.
Poderei amar livremente as palavras sôfrega, irrefreável,
consubstanciosa e soslaio.

Poderei livremente renegar o rock,
o fim da poesia dos ônibus de janelas abertas
e o fim do silêncio nos salões de cabeleireiro.

Poderei livremente renegar o uso irritante da tecnologia.
Poderei, inclusive, ser muito, muito incoerente
e postar isso no Facebook.

Poderei livremente gostar só de músicas de mulherzinhas
da nova safra da MPB
que cantam baixinho
e usam vestidos floridos.
E em seguida morrer de tesão ouvindo
o Mick Jagger cantar Angie.

Poderei livremente fritar ao sol sem medo de raios UVA e UVB.
Poderei proibir meu filho de comer chocolate
e ver desenho na televisão,

e imediatamente dar a ele café com leite,
e rir com ele vendo Alien X O Predador.
Posso não gostar de gibi, nem de textos pós-dramáticos
e morrer de sono e tédio ao ver uma peça sem narrativa.

Posso ensinar o hino do Corinthians ao meu filho,
dizer a ele que esmalte é coisa de mulher
e depois deixá-lo usar meu batom e andar com meus
sapatos de salto alto.

Posso olhar para um homem e dizer:
quero te beijar agora
e chorar como uma virgem em casa
de solidão e saudade.

Posso não prestar continência a ninguém.
Posso não ter medo de nada,
só do meu desassombro.

Posso tudo o que eu quiser
do jeito que eu quiser
na hora que eu quiser.

Porque quando eu atravessar a rua
amanhã de manhã
ou agora mesmo
bem daqui a pouquinho,

diferente de você,
tenho certeza de que um caminhão
bem grande,
bem veloz,
bem veloz mesmo
e
desgovernado
pode acabar
com qualquer certeza,
medo,
raiva,
tédio
ou
rancor.


***

 

Alguma epifania

 

E sendo a noite o final do dia deveria
trazer alguma epifania
para rimar, para fazer sentido,
mas não traz.

Os desafios auto impostos
crescem gigantes
à minha frente

como as bocas dos dragões
que meu filho coleciona
e que no escuro das horas insones ( perdidas)
me metem medo de verdade.

Mas fé é para ser tirada do bolso
nesses momentos.
Para que lembremos com destemor
que o mistério é a matéria
que habitamos todos os dias.

E que ir e vir é só o que podemos fazer entre
nascer ( vindos de um lugar que não conhecemos)
e morrer ( indo para um lugar que não sabemos se existe).

Então, parece mesmo que não há jeito:
o mistério é estar aqui
agora.

E disso tiremos o melhor:
procuremos sem descanso o abismo que
melhor nos apraz para sentarmos em sua beira
e balançarmos os pés despreocupadamente,

pois para isso
é necessário que eles não estejam fincados
com segurança em terra firme
alguma.

***

 

Por tão Pouco...

 

Olho para o sabonete na pia.
Ele está no final.
Gosto de usar os sabonetes até o finalzinho.
E pensar o que acontece com eles.

Sobram sempre alguns pedaços.
Eles não se extinguem por completo.
Nem o shampoo, a pasta de dente
ou o perfume.

Há sempre uma gota no final do frasco,
do recipiente, da embalagem.
Como os grãos de arroz, o pó do café.

Nós é que desistimos deles.
Desistimos de apertar o tubo,
de catar migalhas,
de bater no fundo do frasco.

Um dia cansamos de nos esforçar
por tão pouco.

 

 


 

Livro: Amor que parte

Autor: Paula Autran

Gênero: Poesia

Número de Páginas: 150

Formato: 14x21

Preço: R$ 38,00 + frete

 

 

 

 


 

Livro: Manifesto de mim mesma

Autor: Paula Autran

Ilustrações: Natália Lemos

Gênero: Poesia

Número de Páginas: 140

Formato: 14x21 - acabamento em capa dura

Preço: R$ 35,00 + frete