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Chico Lopes

CHICO LOPES

 

Autor do livro de poemas Caderno Provinciano, Chico Lopes (Francisco Carlos Lopes) nasceu em 6 de maio de 1952 em Novo Horizonte – SP. Publicou três livros de contos – Nó de sombras (IMS/SP 2000), Dobras da noite (IMS/SP 2004), Hóspedes do vento (Nankin Editorial/SP, 2010) e o romance O estranho no corredor (Editora 34/SP/2011). Em 2012, publicou seu primeiro livro de memórias A herança e a procura (Ler Editora/Brasília). O livro O estranho no corredor recebeu um Prêmio Jabuti na categoria romance em 2012. Caderno provinciano é seu primeiro livro de poesia, reunindo poemas escritos em Novo Horizonte e Poços de Caldas entre 1980 e 2003.  Reside atualmente em Brotas, SP.

 

Contatos:

Skook de Algarobas Urbanas

 


Conheça 03 poemas do livro Caderno provinciano, de Chico Lopes:

 

 

O AREAL


Areal da noite, enigma sem causa,
turbilhão de sono, tumba de asas,
quero ser o mais secreto atalho
lambido de sereno, o mais discreto
dos regatos calmos, cantando baixo
à minha solidão, em acalanto,
esta contida ária quase pranto.

Que os outros não me ouçam,
que o próprio som me seja
involuntário, fácil, como o rio
de que emergi sem nunca ter pedido
a bem de um mundo escuro e gratuito.

As facas se entrecruzam, são dispostas
espadas sobre a seda, e o desenho
da nobre solidão claro se torna –
é mão jazendo à espera na bigorna.

À espera de nascer, navego escombros,
indeciso fio entre negror e aurora,
meu sonho é um vislumbre de estar vivo
e reincido em erros muito antigos.

Andaimes da noite me sustentam, fluídos,
e apontam para céus não percorridos.

***


ÓCIO

 


O tédio, oficina lerda
onde os demônios se esmeram
com finos, precisos martelos
em modelar tua sina,
é tua morada em tardes
longas, de ossadas quentes.

Carregas livros para o sótão
e lá te ocultas. Inútil:
o pesadelo da calma
não te abandona, montado
em tua nuca, aplicado,
infatigável morcego.

Olhas para os despojos
de teus projetos. Ratos
engordados a papel
passeiam sobre relíquias
intocadas pela vida.

Queres sentir uma fúria
ou indignação à altura
da revolta desejável.
Mas o corpo não se importa:
está viciado em descaso,
rei coroado de moscas.

Desistes de achar medonho
o que não se muda à força
de o acharmos qualquer coisa.
Aceitas a atonia
que, sem tua aceitação,
de qualquer modo, é rainha.
Isso tampouco exorciza
o desgosto de ter vida
inteira, rubra, candente
consumida em negação.
Um movimento qualquer,
um só movimento, um gesto
bastaria. Sairias
para longe dessas teias
urdidas por tua baba
de pasmo, ócio, lamúria.

Não o consegues, o gesto.
Ficam longe de teu braço
os ônibus de partida,
os carros inexoráveis
que talvez quebrassem o encanto
petrificante do Fado.

Desaprendeste a querer,
teu desejo não se move.

Ficas. E em teus lábios
de cinza úmido e fértil
brotam livres, desmedidos
uns fungos retorcidos,
estupefatos.


***

 

PÉRIPLO


Seja qual for a paisagem,
sejam quais forem seus itens
inúmeros,
sedutores,
feéricos,
será sempre o Deserto.

Qualquer chão que se pise é areia e pedra
e não se avista uma cisterna
que não seja miragem.
Vai-se no escuro, e o tato
só afaga espinho de cacto.

Devagar com a caravana
repleta de despojos –
relíquias do Bem, muletas,
flores, gravuras, colheres.
Os camelos são lerdos, o guia
fala uma língua insondável.
Não há mapa.

Placas indicam cidades,
mulheres, hotéis, restaurantes.
Mas você não se desvia: já sabe
o alto preço dos oásis.

Não faltam livros, e há sábios,
cabeças enterradas nas dunas.
Há anjos falando sozinhos,
um rico mercado de espelhos,
êxtases em liquidação.
Você não se ilude: a esta altura
tudo em você é armadura.

Seja qual for a oferenda,
sejam quais forem as pompas,
nada atingirá o cerne
íntegro da sua mágoa.

É abrir o cantil imaginário
e beber a palavra água.




Livro: Caderno Provinciano

Autor: Chico Lopes

Gênero: Poesia

Número de Páginas: 150

Formato: 14x21 - acabamento em capa dura

Preço: R$ 35,00 + frete