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Homero Gomes

HOMERO GOMES

 


HOMERO GOMES é autor do livro de contos Sísifo Desatento (Editora Terracota, 2014, finalista do Prêmio Sesc de Literatura) e do livro de poemas Solidão de Caronte (Editora Patuá, 2013, vencedor do Prêmio Poetizar o Mundo). Publica regularmente em periódicos eletrônicos e impressos. Escreve e publica ficção e poemas regularmente em periódicos e antologias, por isso, os dois se misturam às vezes. Naraka é o resultado dessa simbiose.

 

 

Contatos:

Skook de Algarobas Urbanas

 

 

 

 


Conheça alguns poemas do livro Naraka, de Homero Gomes:

 


Árido Chão



1.

......Grita, sarjeta, as agulhas abandonadas na carne dessas ruas,
......os seres recusados como pasto abaixo das marquises,
com nervos encolhidos dentro de corpos secos destruídos pela cidade.

......Canta essas sombras que vagueiam sem rumo,
.....................................................................vencidos
......por esse novo mundo que não sonharam,
......que sequer esperavam, mas que lhes queima
......o rosto com o bafo da humilhação,
......no sonho incompleto das devassadas ilhas afortunadas
......e das roídas terras do sem-fim.

......Cospe também nos olhos dos nobres barões
......desses ladrões
......que assistem ao espetáculo pútrido dos abutres sobrevoando as fibras tenras desse povo, e que riem de seus feitos, de seus reinos, dos jogos que inventaram para manipular
............esses seres sem rosto:
..........................................homens ocos,
......que não possuem memória nem descendência,
......que, diante do vento frio,
.....................com pés rachados sobre o asfalto umedecido pela garoa,
......apenas abaixam o queixo, de cenhos franzidos de cansaço, na amargura das calçadas, olham seus passos perdidos na poeira recolhida por bueiros.



2.


......Ele não tem onde reclinar a cabeça.
......Seu travesseiro de pedra
..............................‒ crânio espatifado no asfalto, os espinhos na pele suada de sal ‒
......ele não tem,
......reclinar sua consciência de ser em ombros alheios não pode mais
..............................‒ onde a cabeça.

......Pulsam as têmporas flácidas de tão ocas. Cheiro de podre nos pelos das narinas inexistentes.
......O vazio ‒ sinal:
......símbolo da sua (d)existência.

......Pus vazando pelos olhos avermelhados de cansaço. Cansar no ócio do ontem na previsão da inutilidade de adiante.

......Reclinar
......o peso que ele não tem na cabeça.

......Onde.
......Peso ‒ pedra sem sono.
....................................A leveza da densidade da matéria.
......Não. Leveza ‒ plumas sem esse cão que se esfrega na barra da calça. O peso desse oco que suga a gravidade dos olhos.

......Essa cabaça seca caída sobre a terra rachada poeirenta sólida como a rocha ‒ sua cabeça sobre o nome: a maldição efêmera dos símbolos.
......Seu nome reclinando sobre a cabeça do rio esquecido.

......O tempo não corre mais..............só o vapor da pedra no ar.
......: o resto nas sombras das arestas dessa pequena densidade :



3.

......Que silenciem os lamentos
......‒ as cantilenas do eu não envergonhado de seus olhos opacos,
...........................mesmo diante da neblina venenosa que circula a sua frente ‒
......desses ais egocêntricos
......que envergonhariam os deuses mais imorais.
......Que silenciem os campos de batalha ancestrais para ouvir esse murmúrio abafado por cobertores, sujeira e papelões esfarelados
......– esse lamento dos que não possuem voz.

......Que os urros entre pedras
......revelem a história
......daquele que vive não como animal, mas apartado da vida, triturado, destituído de contorno e ligamento
..................................................................................................................................................... ‒ densidade ‒,
......sem vigor no meio do caminho de sua vida,
......daquele que não possui chão nem identidade.



4.



......Pedro, uma rocha?
......Um iceberg: sobre o mar, um pequeno floco.
......Desse mar primitivo e sem mistérios ‒ esconderijo.
......Um cobertor, no silêncio, o mantra. Um canto de proteção sem glória: a primeira mãe dos homens.

......Com as unhas roçando os corais, dorme. Acalenta o desespero refletido na lembrança azeda do leite escorrido de sua mãe.



5.

......Vestida de rendas: produto de traças,
......coberta por um véu branco,
......na candidez dos olhos esbranquiçados,
......relembra a floração de seu pequeno fruto ‒ apodrecido na terra quente sem relva, enfraquecido no calor, endurecido pela saraiva.

......Da flor aos vermes ‒ trajetória de Pedro.

......Concebido entre as palhas do paiol
......‒ atrás da grande casa branca ‒
......levemente vazado entre as fibras da jovem pele
......macia e úmida ‒ berço quente.

......De um e outro pai ‒ retalhos.
..................(Música improvisada em uma noite de orgia
..................pelos domínios dos desejos bestiais.)
......Cada pedaço colado, formando a pele e o ser.

......Proibido de nascer pelo ventre da mãe
......‒ atirado ao chão com açoites e coices.
......Ódio e ressentimento nos olhos dos lírios.

Pedro: pó de esterco.

 

 


 

 


Conheça 03 poemas do livro Solidão de Caronte, de Homero Gomes:

 

 

Sísifo



II – Passo em falso


O rosto esfolado no chão
E as narinas entupidas de lama.

Sem sustentação a rocha cai sem peso sobre a nuca,
Que permanece esmagada por palavras.

 

***

 

A Vereda se Encheu de Pedras



A vereda se encheu de pedras que brotavam no borbulhar dos pés.

As pedras cuspiam espinhos
– nuvem de dor ao redor da visão –,
a pele rasgou no caminho:
pedaços da história deixando marcas.

A vereda no meio das pedras.

Os olhos fecharam para supor destinos,
os dentes cravados nos lábios:
a voz e o grito presos dentro das pedras.

Os nervos endureceram espinhos.
A vereda borbulhou de pés.

Pegadas de dor sobre a vereda marcada de história.
Pois a vereda se encheu de espinhos.

Nos olhos cansados, a vereda de restos num campo de pedras.
A vereda se fez com pegadas que deixaram de borbulhar nos pés.


***

 

Prometeu



ele falava do que conhecia
sentia nos pelos de seu corpo o torpor das almas desorientadas
sua voz ecoava pelo vale

amordaçado
pretendem matar a voz

inoculou no sangue humano
o desejo

amordaçado
pretendem deter o vírus

a importância da voz
e de sua reverberação pelos espaços

amarram pés e mãos
prendem seu corpo a uma montanha úmida e nua
tapam-lhe a boca
corda e violência

o vírus
que se espalha
enquanto escorre o tempo

amordaçado
pretendem anular os atos inoculados nos homens

 


 

Livro: Naraka

Autor: Homero Gomes

Gênero: Poesia

Número de Páginas: 118

Formato: 16x23

Preço: R$ 42,00 + frete

 

 

 

 

 


 

Livro: Solidão de Caronte

Autor: Homero Gomes

Gênero: Poesia

Número de Páginas: 100

Formato: 15x20

Preço: R$ 30,00 + frete