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José Geraldo Neres

JOSÉ GERALDO NERES

 

Autor do livro Olhos de Barro, José Geraldo Neres é poeta, ficcionista, roteirista, dramaturgo (com formação em oficinas e cursos de criação textual), produtor e gestor cultural paulista. Publicou os livros de poesia: Pássaros de papel (Dulcinéia Catadora, 2007) e  Outros silêncios (Escrituras Editora, 2009): Publicações em suplementos, revistas literárias no Brasil e exterior, com traduções para Castelhano e Francês. Ministra oficinas literárias, com ênfase em criação literária e estímulo à leitura. Curador do projeto Quinta poética encontros multilinguagens promovidos pela Escrituras Editora e Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura (2010/2012). Diretor da União Brasileira de Escritores – UBE (2012/2013).

O livro Olhos de Barro recebeu menção especial no 3º Prêmio Gov. de Minas Gerais de Literatura, ficção – 2010.

Contatos:

Skook de Algarobas Urbanas

 


Conheça 03 textos do livro Olhos de barro, de José Geraldo Neres:

 

Trecho do conto “O espelho na pedra”


"Nas paredes, não consigo percorrer a infância das pedras. A noite abre minha boca, passa pelos dentes. O corpo não suporta outra porta. Ela leva o corpo das palavras. A palavra corpo. Casa. O passado procura uma criança. Um travesseiro assustado. Além do quarto. Às vezes as lágrimas cobrem a insônia. Minha carne quer se livrar dos ossos. A cama e seus galhos retorcidos não aceitam sacrifícios. Só me resta recolher os relâmpagos. Hoje não há cobertores. Mostro as mãos vazias e os joelhos perfurados. Terra vermelha. Há lama nos contornos do corpo. Ela não retira os espinhos que carrego. Procuro o começo da infância. O criador não atravessa as paredes. ― Mãe. Não sei rezar. O rosário de pedras me acompanha. As paredes crescem. A noite me leva os dentes. Invoco nomes desconhecidos. Seu nome. O outro."

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Trecho do conto “Outra infância”


"Nenhum pássaro. Tenho sementes, água. Vozes passam ao meu lado. Cobrem meu corpo com palavras impronunciáveis. Sem perceber estamos parados na frente da casa. Não há socorro quando perdemos nossos nomes. Uma sombra passa por mim. Não consegue entrar no espelho, ele está coberto com um lençol branco. Ela caminha com dificuldade. Agora, outras crianças passam por ela e tentam ajudá-la. Seus ombros magros e arqueados respondem com voz infantil: quando nasci, ganhei de presente essa pedra, com o passar do tempo ela foi tornando-se parte de mim. Dizem que foi isso que matou minha mãe quando nasci, outros, que ela foi levada numa rede, nunca mais voltou. Às vezes olho para o espelho, não consigo distinguir: a pedra e meus ombros."

[...]


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Trecho do conto “Vozes no espelho”


"Às vezes os mais velhos escondem as chaves em lugar próximo, debaixo do tapete, pedra ou vaso. Às vezes a porta está apenas encostada. Coloque pedras no lado direito e mais à esquerda. Modele os galhos com barro. A velha nos chama de herdeiros de Adão. Ninguém na minha família tem nome. Nunca vi o seu rosto, mas sei que guarda todos os brinquedos na casa. Ela anda com a ajuda de um bastão de madeira. Quero brincar com aquela madeira e rebater a bola para bem longe. A velha cortou o couro da última que caiu no quintal. A casa não tem portão nem muro. Ali tudo se perde. Encontrou a chave? A velha é uma bruxa. Nenhuma criança na casa ou na janela. Ela guarda os brinquedos? Encontrou a chave? Mais à esquerda, assim fica torto, ela vai perceber que estivemos aqui. Não sei escrever Adão. Vamos embora, a velha pode chegar a qualquer momento."

[...]



 

Livro: Olhos de Barro

Autor: José Geraldo Neres

Gênero: Conto / Poesia

ISBN: 978-85-64308-44-2

Número de Páginas: 120

Formato: 15x20

Preço: R$ 28,00 + Frete