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André Ricardo Aguiar

ANDRÉ RICARDO AGUIAR

 

André Ricardo Aguiar, autor dos livros de contos Fábulas portáteis (Patuá, 2016) e de poemas A idade das chuvas (Patuá, 2013), nasceu em Itabaiana, Paraíba, em 1969. Publicou, entre outros, os livros de poemas A Flor em Construção (Editora Ideia, 1992) e Alvenaria (Editora Universitária/UFPB, 1997). Também é autor de diversos livros infantis e de crônicas. Participou de revistas, suplementos e antologias, como Correio das Artes, Jornal Rascunho, Poesia Sempre, Ficções (Portugal) e em revistas eletrônicas como Zunái, Cronópios, Blecaute e Musa Rara. Além de eventos literários como Itaú Cultural (SP) e a Flibo (Boqueirão-PB). É membro-fundador do Clube do Conto da Paraíba e coordenador de projetos de incentivo à leitura.

 

 

 

Contatos:

Skook de Algarobas Urbanas

 

Conheça 02 contos do livro Fábulas portáteis, de André Ricardo Aguiar:

 


Casa de bonecas


Hermes tenta não contar para ninguém. Mas na sua casa tem uma casa de bonecas no porão. Que devia ser da bisavó, acha. Entre quinquilharias, lá está. É idêntica a uma casa em estilo vitoriano, o teto é uma tampa que se suspende, dá para espiar o interior e ver com orgulho o trabalho artesanal: as divisórias, os móveis liliputianos do quarto, um corredor, outro quarto, uma escadaria que leva ao térreo. Um mimo. Dá para olhar, agachado, todas as janelas, ver como o carpinteiro trabalhou as esquadrias, aqui e ali uns encaixes na parede imitando um quadro, totalmente kitsch. Enfim, entre teias de aranha, caixotes e crise de asma, uma vez ou outra ele vai lá espiar. Só que descobriu que não estava só.

Numa noite, pouco antes de ir dormir, antes de cerrar a porta do porão, desceu novamente a escadaria e agachou-se defronte à casa de bonecas. Havia uma diminuta luz vagamente iluminando o quarto: era o abajur de plástico. Seguindo o rastro da luz, que lambia a cama de papelão, viam-se os contornos de uma minúscula mulher (de plástico?) levemente ressonando. No banheiro, som de água, pia aberta, barulho de barbeador. Hermes, incrédulo, baixou a tampa do teto, esfregou os olhos. Guardar segredo. Não contar para ninguém. Uma casa de bonecas no porão, herança da bisavó. Mas achou que era demais, um sonho mau e cínico. Resolveu dar um tempo, parar com os comprimidos. Fruto de uma coleção de insônias. Hermes voltou à faculdade, para as aulas de lógica.

Uma semana depois, desceu ao porão. Parecia mais fundo, ele mesmo uma caixa de sapatos guardando a memória familiar. Ou onírica. Lá estava, meio azulada, a casa de bonecas. Um brinquedo inocente. Até certo ponto, não fosse o homenzinho encarrapitado no teto, fazendo reparos. Como se algum leviano tivesse batido com força. Parecia irritado. Depois desceu por uma escadinha e sumiu pelo flanco da casa. Hermes não chegou mais perto nesse dia. Por garantia, passou a chave na porta.

No dia seguinte, munido de lupa, a respiração contida. E por uma abertura – já não arriscava a dizer janela – olhou para o casal, o boneco virado para o fogo da lareira, um jornal aberto na cara, e a boneca tricotando um casaco. Parecia irritada. Parecia falar, sem meias palavras, sem conter o fôlego, o mover de lábios, dizendo palavras duras. Que o mundo não era brincadeira. E que existia sim, dentro da normalidade, a brecha. E dentro da brecha, a mão gigantesca – como um terrível deus – de um destino vigilante, que um dia (e disse isso para o marido, tricotando mais rápido, iracunda) ia se meter onde não era chamada.




O cúspula



O cúspula é um animal de médio porte, de pelo rasteiro. Emite um cheiro desagradável e tem como defesa o grito agudo, capaz de partir copos de vidro, cristal. Não existe notícia de caçadores de cúspulas. Mas os que se arriscam à lenda, esses velhinhos surdos que caçaram na floresta, no capão, explicam que a surdez foi acidente com cúspulas. Uma história mal contada, por sinal. Um cúspula ataca no grito, vive solitário e seus hábitos lembram os de um macaco assustado ou de um tatu muito tímido. Quando um cúspula encontra outro, só um sairá vivo. A morte de um cúspula é de mau agouro – e nas matas, os galhos e arbustos devassados indicam que um cúspula foi cuspido para fora da vida. O cheiro é mais insuportável ainda. Os pelos são duros, e quando roçam, sem querer, em outro bicho ou mesmo em gente, causam feridas profundas. Nunca mais foram vistos, mas nos lugares em que habitavam o ouvido apurado percebe uma eletricidade tremelicante no ar.

 

 

 

Conheça 04 poemas do livro A idade das chuvas, de André Ricardo Aguiar:

 

Mudança


O deus de uma casa
não é igual ao deus de outra casa.

Dois terços de mim são raízes,
nenhum fôlego é alicerce.

Mudar é um enigma
só para plantas.

***

 

Segundas intenções


Ninguém me  disse nada
dos minérios do amor,
dessas intensas planícies de sangue
onde o coração se conecta
à suave caligrafia de Deus.

Para as segundas intenções
da escuridão, guardo vaga-lumes
e desconfio que até as palavras
vibram secretos ideogramas
ao menor enfarte ou câncer.

Pátina esse amor que patina
no gelo indecente de um silêncio:
quem ama desconfia de bússolas
e sufoca de respiração e adoça
ainda e sempre o mel mais absurdo.

***

 

Teologia

Deus visto daqui de baixo
finge que não me vê.

Eu o finjo igualmente
com um ar sem rumo, ser
ou não ser.

Posto que não há mais
o que fazer:

para todo efeito
o pacto é morto,

eu ando por linhas, torto.

***


Longe daqui, aqui mesmo


Diz-se que um poeta morre
de um grande amor
e cem mil vezes ressuscita em poema.

Trêfego engano, caro leitor
- basta um porre,
uma faxina, um pouco de estricnina

(o poema que estrebuche
de dor, lá longe
nas razões da oficina).

***

 

 


 

 

Livro: Fábulas portáteis

Autor: André Ricardo Aguiar

Gênero: Contos

ISBN: 978-85-8297-348-6

Número de Páginas: 144

Formato: 14x21

Preço: R$ 38,00 + Frete

 

 

 

 


 

Livro: A idade das chuvas

Autor:
André Ricardo Aguiar

Gênero:
Poesia

ISBN: 978-85-64308-64-0

Número de Páginas: 120

Formato: 16x23

Preço: R$ 35,00 + Frete