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Ellen Maria

ELLEN MARIA

 

Autora dos livros de poemas Gravidade (Patuá, 2017) e Chacharitas & gambuzinos (Patuá, 2015 - Edição bilingue), Ellen Maria Martins de Vasconcellos veio de Santos. Formada em Letras na USP, atua como revisora e tradutora de textos (here, there, and everywhere). Publicou poemas em quatro antologias pela Andross editora, e em três antologias pela Ed. Annablume (Ávida Espingarda, Aos pés das letras e Anamorfoses). Também já marcou presença com poemas próprios em português e espanhol e traduções em diversas revistas nacionais e estrangeiras, como Mallarmargens, El humo, Qorpus e Ombligo; além da antologia Frontera, lançada pela Lagrullita Cartonera, no Chile. É fanática pela literatura latino-americana. Toma fanta uva e café sem açúcar. Acredita em fantasmas e desconfia dos vivos. Enxerga muito bem, mas às vezes fecha os olhos. Definitivamente, não tem o coração de pedra. Escreve no blog http://ritepramim.blogspot.com.

 

Contatos:


Conheça 7 poemas do livro Gravidade, de Ellen Maria:

 

uma língua como destino
a que nunca chegamos


uma língua do lar
para abandoná-la
e a casa torna
qualquer uma


não há língua madrasta

 

***

 

castigo
exílio interior
ruínas no canto da sala
conjurando uma nova pompeia
a cada lágrima engolida

***

 

desafio
contar as sílabas poéticas
de cada bronca
e responder na mesma métrica

 

***

 

revisão de tarefas:
aprendi a engolir o choro
a fingir ser forte
a acreditar na minha falsa força
e nunca mais duvidar de sua existência
a ser prática com questões pequenas
é assim, pois então é assim, e pronto
aprendi que não se comem as unhas
porque é debaixo delas que guardamos a ansiedade
que se deve terminar antes
o relacionamento, o almoço, o prazo
eu elejo o fim, eu lavo os pratos, eu cumpro a meta
e, como autodefesa, sempre ir
jogar o lixo no lixo
vencer sem cantar vitória
perder e rever os erros
aprendi a golpear sem tocar
a ser dura sem ser fria
a ser doce sem enjoar
ser mulher é aprender a tornar-se homem, com ovários

 

***

 

gravidade


onde caem as maçãs
jaz a teoria
quanto pesa um corpo
quando ainda é
semente?

 

***

 

ferro industrial


controlar a/à força
do braço e do punho:
lágrimas lavadas a seco
broncas estendidas à sombra
rasuras desaparecem
se passadas a limpo

 

***

 

te busco em cada célula velha
que se esfarela
e nos grãos de areia que me salgam
e se misturam
minha mãe me observa com curiosidade
será meu este traço
o que pode ser mas já não é
te busco em cada brotoeja que me aparece
em cada consulta médica ou fio precocemente branco
uma possibilidade de te ver
em cada atestado que não entendo a letra
há uma palavra entre parêntesis para ti
e quando tomo água
de quem puxei o som estranho da minha garganta
A glote emperrada
(o copo nunca esvazia)
Uma tireoide estranhamente equilibrada
-te busco
e me preocupo, engolindo seco,
com o desconhecimento da metade
de minha árvore genealógica
com a doença hereditária         (preencha aqui)            que ainda não tenho
te busco no espelho e não vejo sombra
daí entendo
se pareço a alguém que não me é familiar
pareço mais ainda a quem me é família
e somente daquele que se chama de pai
me nomeio na condição de ser filha
e me reconheço.



 

Conheça 07 poemas do livro bilíngue Chacharitas & gambuzinos, de Ellen Maria:

 

A poesia viverá
ainda que ninguém me escute
e veja a escuridão
ainda que a água siga subindo
e me doa o corpo
ainda que a rejeição se misture ao esquecimento
e nasça ratos
ainda que me peçam caos
e se abra um buraco no chão
ainda que eu morra na fuga

 

e alguém me chame
ainda que eu veja a luz
e a água siga baixando
ainda que me doa a alma
e o abraço se misture à memória
ainda que nasça flores
e me peçam silêncio
ainda que se faça amor no chão
e eu morra na espera
A poesia viverá

 

 

***


Ciências e Letras

 

Vejo um poema distante
que desaba
na mesma proporção
em que me aproximo
quando chego a um palmo de seu corpo
o poema não passa de um rastro
de um triz
de fiapo
agarrado
numa célula
da medula da ameba
num microscópio
de um cientista renomado
ganhador do prêmio Nobel
do ano passado.

 

***

 

Autorretrato

 

Pinta aquele que se vê
íntimo, nu
em simultâneo estrangeiro
onisciente, ínfimo
com direito a olhar a si
distinto
e ao mesmo tempo inteiro
Voyeur com um espelho
que fita o vivo e opaco
personagem-protagonista
fotografia de um pedestal vazio
porém adornado
Um corpo frio que se expande
e que nunca antes
houve outro igual
Finaliza a figura que o rebaixa a homem
e honra orgulhosamente
o nome
na assinatura de um poema.

 

***

 

Desaguo

 

Duas linhas cor-de-rosa
e outra vez o medo
do sangue
que sempre esteve por vir
e que eu termine
jogando um produto azul
para limpar o vaso.
Duas linhas cor-de-rosa
e outra vez o segredo
de blindar qualquer sorriso
antes do terceiro mês
e a espera eterna
de quem nunca viu
o sol nascer.
Duas linhas cor-de-rosa
e outra vez o silêncio
o luto por ninguém
às vezes tenho vontade
de estar só
às vezes só quero
que tudo não se parta.
Duas linhas cor-de-rosa
e a leitura do prospecto.
Me canso dessa escritura
sem relato.
É tão longe pedir
tão perto saber que não existe.

 

***

 

Crônica de uma fuga

 

O beija-flor
na hora do sexo
treme e resplandece
depois voa e desaparece.

 

***

 

O meio e a mensagem

 

Não cai uma gota
desde o ano passado
e na única emissora de rádio
com espaço para música clássica
não há previsão do tempo
mas depois do intervalo
o locutor sem esperança
derrama no ar
As Quatro Estações
de Vivaldi.

Do outro lado
o ouvinte chora.

 

***

Se eu me sinto latino-americana?


Se roubam a prata como às uruguaias
Se me matam de fome como às peruanas
Se me secam de sede como às bolivianas
Se me arrancam a língua como às paraguaias
Se me tiram os olhos como às jamaicanas
Se me desaparecem as veias como às panamenhas
Se me queimam a pele como às dominicanas
Se me comem a carne como às brasileiras
Se me querem distante como às cubanas
Se me querem invisível como às guianas
Se me querem pequena como às equatorianas
Se me querem muda como às nicaraguenses
Se me querem surda como às salvadorenhas
Se me querem puta como às porto-riquenhas
Se me querem escrava como às mexicanas
Se me querem pobre como às haitianas
Se me querem morta como às guatemaltecas,
Sim, me sinto latino-americana
e inclusive depois de morta
seguirei sendo desta terra.

 

 


 

 

Livro: Gravidade

Autor: Ellen Maria

Gênero: Poesia

Número de Páginas: 96

Formato: 14x21

Preço: R$ 38,00 + frete

 

 

 

 


 

 

Livro: Chacharitas & gambuzinos

Autor: Ellen Maria

Gênero: Poesia

Número de Páginas: 200

Formato: 14x21

Preço: R$ 38,00 + frete